Que Deus é este que, para enaltecer Abel, despreza Caim?
Parece que esta questão tem andado a atormentar algumas mentes de uma certa elite intelectual. Uma elite intelectual que tem como passatempo preferido atormentar-se com a malevolência de um deus que não existe. É por isso que vemos
certas e determinadas personagens, supostamente o expoente da racionalidade e da cultura, a arremeter corajosamente contra um exército de
espantalhos e a chegar a uma conclusão surpreendente: que ler a Bíblia de uma forma fundamentalista leva a absurdidades sem sentido. E esta, hein? Acontece que ninguém lê a Bíblia de uma forma fundamentalista a não ser alguns protestantes … e os ateus. Nenhum católico informado acredita nessas coisas que o Sr. Saramago afirma não fazerem sentido… precisamente porque não fazem sentido. Nenhum católico acredita que o Inferno é uma condenação com o mesmo objectivo das prisões terrestres, de integração social (eu pergunto-me se Deus não criasse o Inferno, onde é que o Sr. Saramago se sentiria bem, tendo em conta o ódio que nutre por Deus). Nenhum católico acredita que antes da Criação Deus andou sem fazer nada. Todo e qualquer católico sabe por que Deus resolveu criar o Universo (porque é um Deus de Amor e o Amor não existe sozinho). Nenhum católico acredita que Deus fez o Universo em 6 dias factuais (nem sequer na era patrística isso era generalizadamente aceite). E, sobretudo, nenhum católico acredita que Deus nunca mais fez nada a partir do 7º dia (se tivesse sido esse o caso, o Sr. Saramago não teria tantos acontecimentos bíblicos de que se queixar).
Portanto, mesmo sem ter lido o novo romance do Sr. Saramago, posso já (pela embalagem que o envolve) perceber que não iria aprender nada se me dignasse a lê-lo. Porque nunca ninguém aprendeu nada ao ler ignorância voluntária. Os argumentos do Sr. Saramago apenas convencem pessoas desinformadas. O que não é pouca coisa, uma vez que a maioria dos católicos portugueses está, efectivamente, desinformada acerca do B-A-BA da sua fé. Por isso, eu posso aproveitar esta magnífica deixa para transformar os insultos ignorantes do Sr. Saramago numa oportunidade de evangelização. É por isso que me cabe esta tarefa de, no meu humilde blog, responder à questão: “
Que Deus é este que, para enaltecer Abel, despreza Caim?”
Para responder, é fundamental darmos uma vista de olhos à própria fonte desta estória: a Bíblia.
Saramago pergunta: “Que Deus é este?”
«Passado algum tempo, Caim ofereceu frutos da terra em oblação ao Senhor. Abel, de seu lado, ofereceu dos primogénitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido. O Senhor disse-lhe: “Por que estás irado? E por que está abatido o teu semblante? Se praticares o Bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo.”»
Gn 4:3-7.
É este o Deus!
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Um Deus que enalteceu Abel, sim… porque Abel mereceu ser enaltecido. Mas que não desprezou Caim, mas antes procurou reabilitá-lo, avisá-lo do perigo que corria se continuasse no mesmo caminho. Um caminho que levou Caim ao fractricídio.
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«O senhor disse a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” – Caim respondeu: “Não sei! Sou porventura o guarda do meu irmão?”»
Gn 4:9.
É este o Deus!
E é este o Caim… o mesmo Caim que Saramago quer enaltecer como expoente da raça humana na Revolução contra Deus. Ou seja, o ódio de Saramago por Deus é tanto, que ele não se importa de tomar o partido de um assassino, desde que esse assassino tenha a veleidade de apontar o dedo irado contra os Céus. O seu nome é Caim, mas poderia ser Estaline, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Che Guevara… ou até Satanás!
Numa das suas entrevistas, o Sr. Saramago diz que: “
a Razão pode ser a nossa moral” e que, portanto, Deus é inútil. Pois bem, vede até onde a Razão sem Deus levou a moral de Saramago. Segundo a moral de Saramago, ser servo de Deus é um pecado maior do que levantar armas contra o nosso irmão.

Tendo isto em atenção, para os argumentos de Saramago serem totalmente nulos, basta-me apenas provar que ser-se servo de Deus não é qualquer pecado. O que, para a mundividência saramaguiana será impossível de provar, uma vez que ser-se servo de Deus é nortear-se pela Bíblia e a Bíblia é “
um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade, do pior da Natureza Humana”. Ora vede só este excerto bíblico:
“
Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”
Jo 13:34
Oh, a crueldade! O piorio da Natureza humana! O drama! O horror! A tragédia!
:D
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Mas claro que o Sr. Saramago não cita o Evangelho segundo S. João. Ele cita (muito inteligentemente) o Pentateuco, ou seja, os primeiros cinco livros da Bíblia (i.e. Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio). Parece que é preciso ler os primeiros livros da Bíblia, como se não houvesse continuação. Como se o Antigo Testamento não devesse ser lido à luz do Novo Testamento. O escritor reconhece (e bem) que a Bíblia foi escrita ao longo de milhares de anos… mas satisfaz-se apenas com os primeiros escritos, como se uma escrita que dura milhares de anos não sofresse qualquer evolução ao longo do livro.
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Para ilustrar a crueldade do Pentateuco… ahem, quero dizer, da Bíblia, o Sr. Saramago usa o exemplo de Abraão. É que Deus, para provar a fidelidade de Abraão, exigiu-lhe que este sacrificasse o seu próprio filho, Isaac. É claro que o Sr. Saramago parece esquecer-se que Deus não levou a Sua exigência até ao fim… que, mesmo no último momento, Deus revelou que não deseja sacrifícios humanos e que só estava a pôr Abraão à prova. Vou trocar isto por miúdos: Nosso Senhor é um deus que abomina o sacrifício humano e é um deus que exige fidelidade absoluta. Vou ainda explicar isto melhor, que é para ficar bem claro: a melhor forma de proteger os nossos filhos do sacrifício humano é, precisamente, confiar totalmente em Deus.
Se o Sr. Saramago tivesse mesmo lido a Bíblia (em vez de criticar um livro imaginário que ele concebeu na sua mente preconceituosa) saberia que aquilo que mais enojava a Deus nas civilizações pagãs era, precisamente, o sacrifício de crianças. Esse é um dos pecados mais horrendos que Deus imputa aos idólatras.
“
Não darás nenhum dos teus filhos para ser sacrificado a Moloch; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor”
Lv 18:21
Pois é… é que uma das características de uma humanidade pagã, afastada de Deus, é o sacrifício de crianças no altar de Moloch. As evidências falam por si. Actualmente, a nossa própria civilização paganizada, afastada de Deus, sacrifica crianças aos milhares. A única diferença é que o nome do deus deixou de ser Moloch e passou a ser Sexo.
Será que o Sr. Saramago está tão disposto a condenar Moloch ou Sexo pelos sacrifícios humanos que estes exigem, tal como condenou Deus por ter feito uma tal exigência de Abraão? Não me parece… Afinal de contas, quando a Igreja Católica vocifera contra os malefícios do aborto, o Sr. Saramago acredita que se trata apenas de uma questão de “poder”, de “controlo sobre os nossos corpos”.
É que o Sr. Saramago não se escandalizou verdadeiramente contra o sacrifício humano exigido por Deus. Ele não está verdadeiramente preocupado com o pobre Isaac. É que Deus apenas exigiu o sacrifício de uma criança, enquanto Sexo exigiu o sacrifício de 40.000 crianças. É que Deus não chegou a consumir uma gota de sangue sequer de Isaac, enquanto a sede de Moloch era insaciável. Não. Saramago não está minimamente preocupado com o destino de Isaac ou de qualquer outra criança. Saramago está preocupado apenas com isto: Deus exige fidelidade absoluta. É isso que o escandaliza no episódio de Abraão. E enquanto Deus exigir fidelidade absoluta e abominar o sacrifício humano, o Sr. Saramago não pode sacrificar crianças nos altares de Moloch ou de Sexo.
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É claro que Israel, com o seu Deus revolucionário e humanista, teve de se impor num mundo bárbaro, utilitarista, adorador de Moloch e de Poder… isto tudo numa época em que não existiam organizações internacionais, ONGs, noções elementares de Direito, redes diplomáticas sofisticadas e Cartas Fundamentais dos Direitos do Homem. É que, nessa altura, ainda não tinham decorrido esses milhares de anos de moralidade judaico-cristã, sem os quais (segundo Saramago) todos nós seríamos muito “mais piedosos”. Por isso, Israel teve de, não raras vezes, defender o seu valiosíssimo património histórico e cultural com variadas guerras. Não pretendo aqui fazer a apologia dessas guerras. Uma guerra é sempre algo de negativo, algo que Deus detesta. Mas não nos enganemos… aquelas eram guerras civilizacionais. As guerras que opunham o Deus do Amor, que abominava o sacrifício humano… e Moloch. Lembremo-nos de que há pouco mais de 60 anos, apenas uma guerra pôde salvar a Europa de mergulhar na barbárie total.
Mas como é que um Deus misericordioso é compatível com estas guerras? Por muito horríveis que fossem esses povos, eles não mereceriam uma oportunidade? Por que dizimar nações inteiras com derrotas bélicas ou dilúvios universais? Aqui é que o Sr. Saramago podia realmente ter lido a Bíblia. Ora vejamos…
.«E eis que, ao pôr-do-sol, veio um profundo sono a Abrão, ao mesmo tempo que o assaltou um grande pavor, uma espessa escuridão. O Senhor disse-lhe: (…) “Eu dou - disse Ele - esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egipto até ao grande rio Eufrates (…) Somente à quarta geração, os teus descendentes voltarão para aqui, porque a iniquidade dos amorreus não chegou ainda ao seu cúmulo.”
Gn 15:12-13,16,18
«O Senhor ajuntou: “É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. Eu vou descer para ver se as suas obras correspondem realmente ao clamor que chega até mim; se assim não for, Eu o saberei.” (…) Abraão aproximou-se e disse: “Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja cinquenta justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos cinquenta justos que nela se poderiam encontrar? Não, Vós não poderíeis agir assim, matando o justo com o ímpio, e tratando o justo como ímpio! Longe de Vós tal pensamento! Não exerceria o Juiz de toda a terra a justiça?” O Senhor disse: “Se eu encontrar em Sodoma cinquenta justos, perdoarei a toda a cidade em atenção a eles.” Abraão continuou: “Não leveis a mal, se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza. Se porventura faltarem cinco aos cinquenta justos, fareis perecer toda a cidade por causa desses cincos?” “Não a destruirei - respondeu o Senhor - se nela eu encontrar quarenta e cinco justos.” Abraão insistiu ainda e disse: “Talvez só haja aí quarenta.” “Não destruirei a cidade por causa desses quarenta.” Abraão disse de novo: “Rogo-vos, Senhor, que não vos irriteis se eu insisto ainda! Talvez só se encontrem trinta!” “Se eu encontrar trinta - disse o Senhor - não o farei.” Abraão continuou: “Desculpai, se ouso ainda falar ao Senhor: pode ser que só se encontre vinte.” “Em atenção aos vinte, não a destruirei.” Abraão replicou: “Que o Senhor não se irrite se falo ainda uma última vez! Que será, se lá forem achados dez?” E Deus respondeu: “Não a destruirei por causa desses dez.”»
Gn 18:20-32
«Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vinga a iniquidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até à milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.»
Ex 20:5-6
«O Senhor disse a Jonas: (…) “E então, não hei de ter compaixão da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e uma inumerável multidão de animais?»”
Jn 4:9-11
Pôish…
Para um Deus destes se irar contra estes povos a ponto de os exterminar… eu tremo só de pensar nos crimes que eles cometeram…
Acho que temos, nestes casos, uma situação muito semelhante à de Caim. O Sr. Saramago assobia para o lado enquanto estes povos assassinam, pilham e violam brutalmente, apenas para condenar Deus quando Ele actua. Mas, (oh! é verdade!) Deus não actuou mais desde o 7º dia… e o Sr. Saramago escandaliza-se com a passividade de Deus. Será que alguma vez Deus conseguirá agradar ao Sr. Saramago?

Outro motivo para o Sr. Saramago se concentrar apenas no Pentateuco, é que este contem a Lei Mosaica. Ou seja, a Lei que Moisés transmitiu ao povo israelita. O Sr. Saramago, ao ler os livros da Lei, não encontrou muito Amor. O que é compreensível. Se eu, para conhecer Portugal, apenas lesse o seu Código Penal, também não acreditaria que este fosse um país muito amoroso. Nem ficaria a pensar muito bem deste país se, para além do Código Penal, lesse apenas uns panfletos que por aí circulam contra o H1N1 “
Nem abraço, nem beijinho, nem aperto de mão…”. É que a Lei Mosaica também prescrevia conceitos de higiene e pureza que permitiram a um povo numeroso atravessar 40 anos no deserto. Ajunte-se a isso os dados dos censos e alguns detalhes cruentos da Batalha de S. Mamede e de outros episódios da independência de Portugal… e voilá! Cá está o Pentateuco, versão portuguesa! Será difícil, de facto, encontrar qualquer vestígio de Amor em tais escritos!
Ufa! Ainda bem que os católicos não lêem esses livros da Bíblia, tão alheios ao Amor… poderiam começar a perder a fé, não é? Poderiam começar a pensar que Deus era “cruel, invejoso, insuportável”, e não um Deus de Amor.
Mas… mas… espera aí… que é isto… que é isto aqui, bem no Livro do Levítico?
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.»
Lv 19:13-18
Uau! O Israel antigo, conduzido pela Palavra de Deus, introduziu este mandamento no próprio Código Penal da Nação! Coisa que nem Portugal, nem a bem-aventurada U.R.S.S. fizeram! A crueldade! O pior da Natureza humana! Vejam só mais esses exemplos de maus costumes! Oh! Os meus sais!
«Não oprimirás o teu próximo, e não o despojarás. O salário do teu operário não ficará contigo até ao dia seguinte. Não amaldiçoarás um surdo; não porás algo como tropeço diante do cego; mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. Não sereis injustos em vossos juízos: não favorecerás o pobre nem terás complacência com o grande; mas segundo a justiça julgarás o teu próximo. Não semearás a difamação no meio de teu povo, nem te apresentarás como testemunha contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. Não odiarás o teu irmão no teu coração. Repreenderás o teu próximo para que não incorras em pecado por sua causa. Não te vingarás…»
Lv 19:13-18
Podereis objectar que esta Lei do Amor que se encontra no Levítico é apenas uma de entre muitas. Como é que era possível pôr em prática essa Lei do Amor, com tantas leis assassinas escritas no mesmo livro? Bem, por isso é que não existe apenas o Pentateuco. Ao longo dos séculos, Deus enviou os Profetas para fornecer a correcta interpretação da Bíblia, sempre que a Lei era abusada. E, no fim, o próprio Deus clarificou:
«Um deles, doutor da lei, fez-Lhe esta pergunta para pô-Lo à prova: “Mestre, qual é o maior mandamento da lei?” Respondeu Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas.”»
Mt 22:35-40
Pôish…
É que qualquer licenciado em História de Direito sabe que a Lei Mosaica constituiu um avanço civilizacional sem precedentes! A Lei Mosaica foi a primeira a olhar favoravelmente para os escravos, exigindo que estes fossem bem-tratados pelos seus senhores e que lhes fosse oferecida a libertação a cada 7 anos. As pessoas arrepiam-se quando ouvem falar da lei do “olho por olho, dente por dente” (Ex 21:24) … mas esquecem-se de olhar para o contexto histórico. Hoje em dia, esta lei parece-nos horrível e desumana. Mas, naqueles dias, era uma lei muito branda. Porque obrigava a que o castigo do crime fosse proporcional ao dano causado. Ou seja, impedia que o castigo fosse superior ao crime cometido.
E por que esta lei do “olho por olho, dente por dente” nos parece horrível e desumana, a nós, modernos? Porque, tal como eu disse no início deste post, a moralidade judaico-cristã foi evoluindo (uma evolução que se encontra registada por toda a Bíblia) … e essa evolução da moralidade judaico-cristã moldou de forma indelével a moralidade colectiva da civilização ocidental. É por isso que julgar a Bíblia unicamente pelos primeiros livros é redutor e absurdo!
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Porém, os meus leitores podem perguntar-me: mas Deus não poderia ter legislado logo de uma vez a Carta Fundamental dos Direitos Humanos? Por que Deus permitiu a pena de morte e a posse de escravos e muitas outras coisas repugnantes na Lei Mosaica? Por que não aboliu todos esses males de uma só vez?
E eu respondo, perguntando de volta: Se Deus o tivesse feito, os judeus tê-Lo-iam escutado?
«Os fariseus vieram perguntar-Lhe para pô-Lo à prova: “É permitido a um homem rejeitar sua mulher por um motivo qualquer?” Respondeu-lhes Jesus: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o Homem o que Deus uniu.” Disseram-lhe eles: “Por que, então, Moisés ordenou dar um documento de divórcio à mulher, ao rejeitá-la?” Jesus respondeu-lhes: “É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres…”»
Mt19:3-8
Deus tolerou essas coisas, porque já conhecia a dureza de coração dos seus interlocutores.
Hoje em dia, Deus deu-nos algo muito mais fiável do que a Lei. Deu-nos a Igreja. Uma unidade viva, orgânica, guiada pelo Espírito Santo, contra a qual “as portas do Inferno não prevalecerão” (Mt 16:18).
E nós? Escutamos a Igreja?
A Igreja diz-nos (pasme-se!) que é errado dilacerar uma criança ou negar-lhe o sustento, ainda que ela ainda não tenha nascido. A Igreja diz que é fundamental proteger estas crianças contra uma lei injusta, como é a lei do aborto.
Os católicos seguiram esta instrução de Deus?
Não!
Preferiram ir na cantilena das ideologias que o Sr. Saramago professa!
Ora, o Sr. Saramago não tem autoridade moral para apontar o dedo aos judeus! Deus exigiu pouco dos judeus, mas eles ao menos cumpriram! Deus exige-nos pouco também… mas nós recusamo-nos a cumprir!
Quando o Sr. Saramago se desculpar pelo sangue derramado de 40.000 crianças, aí poderemos conversar acerca do sangue que Deus alegadamente terá derramado!
Até lá, estaremos apenas a acusar o Ser mais misericordioso e justo do Universo, enquanto nos pomos a desculpar assassínios vis.
Que é o que o Sr. Saramago resolveu fazer em relação a Caim!
Todavia, quando a ignorância é colossal e voluntária, não há argumentos que valham… por mais racionais que estes sejam. Duvido que o Sr. Saramago seja sensível ao que eu disse, ou ao que a Conferência Episcopal Portuguesa disse, ou aos tratados teológicos mais lógicos e sofisticados do Mundo. Quando ele lê a Bíblia (se é que a leu), ele está apenas a pensar que aquele é mais um obstáculo aos seus planos políticos e culturais. Um obstáculo que é necessário derrubar a todo o custo. Mesmo à custa da difamação mais rasteira. Já dizia o Mestre: “Esta espécie de demónios não se pode expulsar a não ser pela oração” (Mc 9:29).
Assim seja:
Senhor, eu creio, eu adoro-Vos, eu espero-Vos e amo-Vos.
E peço pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.
Pai Nosso…